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Parthenope – Os Amores De Nápoles é mais uma obra que confirma o estilo contemplativo e poético de Paolo Sorrentino, um cineasta que constrói suas narrativas como quem pinta uma tela: cada detalhe, por menor que seja, carrega uma simbologia que enriquece a experiência. Após conquistar o Oscar com A Grande Beleza e emocionar com a melancolia nostálgica de A Mão de Deus, Sorrentino retorna com uma história que celebra a vida e a liberdade, sob o olhar misterioso e cativante de Parthenope, interpretada pela magnética Celeste Dalla Porta.
O longa acompanha a jornada da personagem-título desde seu nascimento na década de 1950 até os dias atuais, oferecendo ao público uma viagem pelos encantos e tragédias da vida. Parthenope é uma figura quase mítica, envolta em enigmas e sedutora como a própria cidade de Nápoles, que aqui funciona não apenas como cenário, mas como um personagem vivo e pulsante. Sorrentino explora a cidade com uma lente apaixonada, destacando suas ruas caóticas, suas paisagens marítimas e sua cultura vibrante — elementos que moldam a busca incessante da protagonista pela liberdade.
Celeste Dalla Porta, mesmo em apenas seu segundo grande papel, entrega uma performance arrebatadora. Ela encarna Parthenope com uma delicadeza hipnótica, transitando entre momentos de fragilidade e firmeza. Sua personagem é um misto de musa e enigma, seduzindo homens que cruzam seu caminho sem perder sua essência e sua ânsia por autonomia. Essa construção remete diretamente à fala de Sorrentino: “As mulheres são um enigma para os homens.” Essa afirmação se revela uma peça-chave para compreender a alma do filme, que transforma Parthenope em uma sereia moderna — irresistível e misteriosa.
Além de Celeste, o elenco é enriquecido pela presença de Gary Oldman, que entrega uma atuação sóbria e intensa, trazendo camadas ao universo emocional do longa. Suas cenas ao lado de Dalla Porta são repletas de tensão e cumplicidade, oferecendo alguns dos momentos mais memoráveis do filme. Sorrentino se vale de sua habilidade para dirigir atores, extraindo performances que se conectam com a alma do espectador, mesmo quando o ritmo se arrasta.
A trama é pontuada por epifanias e metáforas visuais que revelam a paixão de Sorrentino por explorar os sentimentos humanos em sua forma mais crua e sincera. Amor, erotismo, saudade e melancolia se misturam nessa jornada, sempre embalados por uma estética que valoriza a beleza em cada detalhe. O filme se desdobra como um poema visual, no qual cada cena parece existir para ser contemplada e sentida, e não apenas compreendida.
Ainda que Parthenope – Os Amores De Nápoles não alcance a força emocional de A Grande Beleza ou A Mão de Deus, é impossível ignorar a habilidade de Sorrentino em criar atmosferas e explorar as nuances de sua terra natal. Sua câmera passeia por Nápoles como se estivesse em uma dança — ora intensa, ora delicada —, revelando a cidade como um palco onde a vida acontece em todas as suas contradições.
Por fim, este é um filme que exige paciência e entrega. Seu ritmo deliberadamente lento pode afastar aqueles que buscam uma experiência mais direta, mas para os que se permitem embarcar na jornada proposta, há uma recompensa poética e sensorial à espera. A cena final, com sua simbologia pungente, é um lembrete poderoso do que o cinema de Paolo Sorrentino representa: uma celebração da beleza, da memória e dos mistérios que habitam cada existência.
Com distribuição da Paris Filmes, Parthenope – Os Amores De Nápoles estreia nesta quinta-feira nos cinemas.
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